Torres-García e a Revolução Pictórica Sul-Americana


Uma arte mais concreta. Entrar na Geometria e no ritmo…
varrer o subjetivo…construir objetivamente…cor pura…
equilíbrio…excluída a terceira dimensão…todo o plano
da cor e da forma…isto é tudo será concreto…Varrido do
aparente para que tudo se represente a si mesmo. Um novo realismo.
E de acordo com a época presente. Isto é o que seria proposto
como programa máximo, já que a América deveria produzir uma
ARTE INÉDITA
Joaquín Torres-García

Torres-García e seu olhar penetrante

Ao falar da história moderna das artes visuais na América Latina, certamente será citado nomes como Cândido Portinari  no Brasil, Antonio Berni  na Argentina , Jacobo Borges  na Venezuela, Siqueiros e Rivera  no México, entre outros, porém não poderá faltar a lista,  aquele que certamente teve maior destaque ideológico nas artes latino-americanas e também um reconhecimento mundial, seu nome é: Joaquín Torres-García.

Qual seria a verdadeira arte sul-americana ou americana? A arte genuinamente regional, aquela desprovida de moldes europeus? Pode-se dizer que boa parte dos movimentos que aconteceram na América não escaparam da “arte reacionária”. Quando Oswald de Andrade propôs uma arte regional aos modernos brasileiros,  oque chamou de “Antropofagia”, estava claro que as raízes europeias seriam predominantes. O terrível pesadelo latino americano, o eterno retorno novamente assombrava nossas artes, sempre vista como sem identidade. No entanto um artista uruguaio, longe de ser conhecido como um Siqueiros ou um Rivera, teve um papel vital, na busca de uma identidade “Sul-Americana ou Americana”, que muitos ainda dizem não existir. Em meados dos anos 30, a Europa passava por uma forte crise financeira consequência da quebra da bolsa de Nova York em 1929, isso fez com que diversos artistas se deslocassem em busca de novas oportunidades. Aos 60 anos de idade Torres-García, um artista já consagrado, decide retornar a  sua terra natal, depois de 40 anos como um nômade pelo mundo. Mais uma vez este velho artista se deparou com mais um desafio: Montevidéu. A cidade trazia uma incógnita e ao mesmo tempo a esperança de se tornar um centro artístico mundial, como foi Paris e como é Nova York.

Durante a permanência de Torre-García na Europa sua obra pode ser analisada como genuinamente Europeia, tendo a mesma, a influência da arte moderna e da Grécia Antiga no princípio. Seu caminho artístico parecia certo até que a obra de Mondrian: o Neoplasticismo traz sua arte para o abstracionismo formal.  Os anos que antecederam a volta para Montevidéu foram marcados pelo redescobrimento do continente Americano, a arte pré-colombiana veio como uma resposta para a revolução artística que sempre emanava em seus escritos. O convívio com a cultura europeia trouxe de certa forma o fundamento híbrido com a cultura latina para o que Torres-García  denominou como: “Universalismo Construtivo” também conhecido como “Concretismo Universal”. Seguindo este mesmo raciocínio, pode-se afirmar que apesar da cultura pré-colombiana  ter um peso muito forte na obra e na concepção de Torres-García, sua vivência no exterior com a cultura europeia trouxe a mistura, a mescla que resultou também no: Universalismo.

Ao chegar no Uruguai em Montevidéu, se depara com o legado da cultura indo-americana na qual já interessava  em Paris e sente a liberdade para por na prática suas ideias estéticas, que propunham um resgate da arte pré-colombiana e não só essa, mas também a união de todas as culturas, desde a Grécia até o Egito, formando assim o que ele chamou de Universalismo, uma arte não apenas nativista, mas universal, não apenas uruguaia, mas mundial.

O Falso Formalismo

Em 1927-29  Joaquín Torres-García, encontra-se regularmente com os pintores abstratos Mondrian, Kandinsky, Michel Seuphor  entre outros. Esta fase é marcada pela transição do figurativo para o abstrato, no início há uma identificação muito grande com as ideias do grupo, a ideia de arte pela arte trouxe a tona a estrutura subjacente da pintura; linha, forma e cor,  no entanto a austeridade que Mondrian tinha com o neoplasticismo o afasta e impulsiona a criação de uma nova etapa na pintura. O abstracionismo de Torres-García não é rigorosamente rígido como o neoplasticismo do pintor holandês, mas uma pintura carregada de qualidades formais e acima de tudo simbólicas. Uma obra de Jackson Pollock não nos remete a nada que conhecemos antes de vê-la, as obras concretas de Torres-García diferentes das de Theo van Doesburg e muito antes do famoso neo-concreto Max Bill (que dominou as mentes de diversos aspirantes a artistas brasileiros nos anos 60) são miméticas nos signos e símbolos, encontramos símbolos hebraicos como a coroa e o tetragrama  em sua pintura, vemos também serpentes, cruzes do Egito e até o sol Inca. É possível identificar imagens que nos remetem a diversas culturas num mesmo espaço.

Nueva Escuela de Arte del Uruguay

Montevidéu é uma das grandes capitais da América Latina na década de 30 e neste ambiente não tão desenvolvido artisticamente é que se inicia uma história que perdura até hoje, ditos por muitos como uma tradição que se iniciou em 1933. Ao longo de sua carreira  Torres-García escreveu vários livros, que percorre numa busca incessante por um arte inédita, como o mesmo citou:  Tomemos tons puros (tenhamos este valor); estabeleçamos planos de cor, façamos uma estrutura e teremos feito uma pintura atual…Porque uma arte própria deve ter uma estrutura própria” Torres-García dizia que a América Latina é a síntese de todos os povos e não existira melhor lugar para difundir uma cultura múltipla, com suas próprias leis e ideais, sem barreiras e influências clássicas; uma arte latino americana. Sentindo como um vulcão de ideias Torre-García se mobilizou em sua terra, fez cerca de 90 conferências em um ano, foi em universidades uruguaias, ministrou palestras e mobilizou, com o intuito de tornar aquilo que ele acreditava numa cultura geral.

Todos esses fundamentos foram escritos e se tornaram uma teoria, como um cartilha a se seguir, porém a arte não pode ter barreiras como muitos dizem e certamente Torres-García sistematizou seu ensino afim de que cada um seguisse de maneira diferente, dentro dos seus moldes. O Ateliê Torres-García se tornou uma escola onde muitos estudaram, seguindo a teoria e a prática e dentro destes calcou-se uma tradição concreta. Ocorreu mais ou menos como a moda, muitos os seguiram outros se opuseram, mas até hoje é lembrada como a verdadeira escola de arte uruguaia.

Ateliê Torres-García (ATC)

Quando falamos de arte quase sempre se lembra de pintura, a mesma coisa acontece quando falamos de construtivismo.  Analisando a palavra construtivismo teremos o sentido de construção e construção nas artes é um assunto muito amplo e subjetivo. O construtivismo(movimento) está ligado a ideia de agregar coisas e qualidades, construir com elementos, com forma, cor e etc. Uma pintura construtivista reproduz por meio da imagem a construção de formas, linhas e objetos. O que há numa tela é apenas a representação de um quadrado ou de uma linha, apenas a representação. A grande maioria das obras de Torres-García são pinturas, uma pequena parte é feita com madeira, essa pequena parte exemplifica a forma de uma maneira concreta, a forma tridimensional, bruta. Olhando de uma maneira superficial entenderemos o concretismo como uma arte exclusivamente pictórica(pintura), como a maioria das obras dele, entretanto os princípios construtivistas principalmente os escritos por ele, não delimitam a execução dessa arte. Dos inúmeros artistas que frequentaram o Ateliê Torres-García (ATC) grande parte deles se tornaram escultores, trabalhavam com volumes, objetos palpáveis, que é a forma em seu estado sólido ou bruto. Aparentemente todos se perderam na estrutura que Torres-García deixou, porém esse pensamento seria extremamente equivocado, lembrando que o processo de criação não se limita apenas na pintura, mas também por meio de outras linguagens e técnicas. A proposta do ATC não era delimitar a criação e sim adequar sua “liberdade” no momento da execução, muitos afirmam que artistas como: José Gurvich, Augusto e Horácio Torres, Francisco Matto levaram ao extremo quando tiraram a forma da tela e trouxeram para o mundo dos volumes.

Na periferia da História da Arte

Quando temos exemplos de autores do passado, tanto da antiguidade como da modernidade por meio de livros e documentos, estaremos certos que nomes como Rembrandt, Courbet, Picasso, entre outros, foram únicos em sua época e muitas vezes estes nos passam a sensação que quando viveram não haviam outros que os equiparassem. A história nos passa a imagem de homens que foram pioneiros, as vezes “inatingíveis”. Ao tentarmos buscar qualquer tipo de referência do passado confrontamos também com o filtro que essas referências passaram. A linearidade que a história nos conta muitas vezes é apenas uma forma ilustrativa e muitas vezes “injusta” dos acontecimentos históricos do mundo. Este filtro que digo é a própria seleção dos historiadores que separam os que tinham valor, dos que aparentemente “não tinham”. Quando falamos de movimentos na América, lembraremos dos mais famosos como Muralistas Mexicanos, Expressionismo Abstrato ou a Pop Art. Os livros que nos passam estes nomes, certamente traz o juízo do autor que segrega os mais relevantes dos menos. O Construtivismo Universal foi um movimento muito estruturado, sua proposta não se perdia numa propaganda inovadora barata, mas numa teoria concreta seguida de uma diretriz que adequou a arte ao seu contexto. Ao analisarmos os escritos de Kandisky e Torres-García perceberemos a seriedade de ambos, no entanto Kandisky permaneceu na Europa onde fez sua carreira e onde estava seu povo. Torres-García também viveu na Europa, mas seu maior feito não foi lá e sim na América do Sul, sua proposta inovadora de arte é algo coeso, tão que permaneceu até hoje, por vias marginais para os olhos de muitos, mas aqui será sempre Torres-García.

O Vibracionismo de Rafael Barradas

Um grande artista uruguaio, contemporâneo de Torres-García e amigo pessoal foi Rafael Barradas(1890-1929), Barradas teve uma carreira curta, porém intensa. Barradas como o próprio Torres-García definiu : Um uruguaio à europeia. Portanto, um artista autêntico” Conviveu com artistas vanguardistas espanhóis como García Lorca e Luiz Buñuel em Barcelona, criou sua própria maneira de pintar, autodenominada de Vibracionismo, uma fusão do Cubismo e do Futurismo italiano, tal influenciou o próprio Torres-García com seu dinamismo, mas por problemas de saúde interrompeu sua curta carreira de artista e veio a falecer em Montevidéu, em 12 de Fevereiro de 1929, deixando um legado imensurável de arte e vivacidade. Barradas e Torres-García são os pilares da chamada Vanguarda Uruguaia.

Torres-García – As lavadeiras, 1903 “A influência da arte Grega no início da vida artística de Torres-García é evidente como podemos ver nos trajes das mulheres”

Torres-García – Figura com paisagem urbana, 1917 “A obra acima demonstra a clara mudança na maneira de pintar de 1911 para 1917, influência do compatriota Barradas”

Piet Mondrian – Composição I, 1931 “A síntese da arte neoplasticista atingiu a forma e a cor pura com Mondrian”

Torres-García – Barco e Trem Construtivista, 1940 “A experiência abstrata do uruguaio, é cheia de signos e símbolos, por isso a divergência com Mondrian”

Torres-García – Arte universal, 1943

“A América do Sul invertida é uma metáfora, na qual o Sul será o Norte e vice e versa, invertendo a importância do hemisfério Sul na arte.”

Torres-García – Estrutura com cores puras, 1929

Pintura de José Gurvich, aluno de ATC

Francisco-Matto-Construcao-em-pe-1979.jpg

Rafael Barradas, 1919

Rafael Barradas, 1918