Takeshi Kitano: Cinema, Comédia e Violência


Takeshi Kitano(1947) ou simplesmente  “Beat Takeshi” é um dos mais aclamados diretores do cinema japonês da atualidade e além de dirigir atua em seus projetos. Seus filmes vão de Comédias até Dramas, no entanto é mais conhecido por seus filmes de Gângsters, especificamente sobre a organização criminosa japonesa “Yakuza”.

A trajetória cinematográfica de Takeshi Kitano aconteceu por acaso, quando em 1988 o diretor Kinji Fukasaku adoeceu e teve de abandonar as filmagens, então o ator principal assumiu as rédias do seu primeiro filme “Violent Cop”(1989). Neste filme Kitano interpreta o policial linha dura “Azuma” que usa de métodos não convencionais a lá Dirty Harry para perseguir criminosos e frequentemente discorda de seus superiores. Esta primeira obra daria o tom agressivo e dramático dos filmes de Kitano, sempre abordando situações trágicas e sua investigação acerca da “Yakuza”.

Kitano divide sua carreira na televisão japonesa de apresentador de programas de humor negro com sua nova carreira de diretor, na televisão ele é um famoso humorista conhecido como “Beat Takeshi”, nos cinemas ele é creditado com seu nome verdadeiro Takeshi Kitano e dirige filmes sérios e com temática de Gângsters .

Depois da estréia vieram outros filmes:”Boiling Point“(1990) é o segundo filme de Kitano, fala de dois jovens que encontram um psicótico mafioso em busca de vingança interpretado por ele mesmo, destaque para cena onde o mafioso colhe flores e usa como artifício esconder um fuzil num buquê; este segundo filme ainda é uma fase de amadurecimento do diretor, praticamente todo elenco é composto por atores amadores, todos estes pupilos do diretor. Logo depois “O mar mais silencioso daquele verão“(1991) é um drama muito poético e delicado sobre um jovem com deficiência auditiva que ao encontrar uma prancha de surf no lixo  e se apaixona pelo esporte, assim ele e sua colega também surda, mergulham em um universo muito interessante que o diretor cria, com paisagens contemplativas e poucos diálogos, destaque para trilha sonoro de Joe Hisaishi, músico competente conhecido por realizar maioria das músicas das animações de Hayao Miyazaki e parceiro de diversas produções de Kitano.  “Sonatine”(1993) ou “Adrenalina Máxima”, traz a vertente mais violenta de Kitano e seu personagem Aniki Murakawa um mafioso durão da Yakuza que é enviado para a ilha de Okinawa junto com outros mafiosos de Tóquio e numa praia vivem situações inusitadas e ao mesmo tempo trágicas.

Kitano não tem medo de explorar em seu cinema o lúdico, o inesperado e a violência, ele mesmo disse que o “riso e a violência são as únicas coisas espontâneas” e seu cinema busca isso, as coisas simples que quase ninguém dá importância e as emoções mais primitivas.

Em 1994 acontece um fato que mudaria não só a vida como a carreira cinematográfica de Takeshi Kitano para sempre, quando voltando para casa das filmagens dirigindo uma scooter acerta a proteção de trilhos de trem, tendo consequências quase que fatais por não usar capacete, passa dias internado com fraturas no crânio e cicatrizes severas no rosto e deformidades no rosto que carrega até hoje. Após este acontecimento quase que fatal, Kitano reflete sua carreira em seu período de convalescença, passa a tomar outra postura diante de sua vida e em sua carreira, começa a pintar e realizar exposições, tais desenhos aparecem nos filmes: “Hana-bi”(1997) e “Kikujiro”(1999). A partir desse momento trágico o cineasta japonês começa a trabalhar mais intensamente e  é após esse período que realiza seus filmes mais notáveis segundo a crítica.

Esta segunda fase de Takeshi Kitano traz alguns filmes de destaque, entre eles: “Kids Return”(1996) ou “De volta às aulas”. Este filme sensível e reflexivo mostra o destino de dois jovens problemáticos,  um deles acha seu caminho no boxe e outro na criminalidade, aqui Kitano explora as incertezas da juventude e as paixões que atraem ambos para caminhos diferentes, na minha opinião um dos filmes mais sensíveis do diretor. E no ano seguinte o filme que o consagrou para sempre: “Hana-bi – Fogos de Artifício“(1997) vencedor de diversos prêmios entre eles o Leão de Ouro de Veneza. Este filme é um divisor de águas na carreira de Kitano, pois mostra sua extrema sensibilidade ao escrever, dirigir e atuar nesta história que conta as desventuras de um policial que ao saber que sua esposa está com um câncer terminal e endividado com a máfia, decide dedicar-se exclusivamente a cuidar de suas esposa e a se vingar dos criminosos que o perseguem. Alguns personagens paralelos como o ex-policial paraplégico fazem uma analogia ao suicídio, tema recorrente em seu obra. Vale frisar a trilha sonora de Joe Hisaishi  torna a obra ainda mais grandiosa.

Nem todos os filmes deste diretor são de violência e sobre a máfia Yakuza. “Kikujiro”(1999) ou “Verão Feliz” fala de um garoto chamado Kikujiro e sua extrema dificuldade em aceitar a ausência de sua mãe, então segue um viagem junto com o personagem vivido atrás da mãe do menino, nesta jornada acontece diversas peripécias, algumas engraçadas outras nem tanto.  Este filme é uma visão reflexiva do diretor a partir de suas experiências reais e tempestuosas de sua relação com seu pai.
Em 2000 Takeshi Kitano faz seu primeiro filme fora do Japão “Brother: A máfia japonesa Yakuza em Los Angeles”, dirigindo um grande elenco japonês e norte-americano Kitano realiza mais um grande filme, com cenas de extrema violência como a prática comum entre os Yakuzas de decepar o dedo mindinho aos que não andam corretamente. Kitano interpreta Yamamoto, um mafioso da escola antiga de Tóquio que viaja para Los Angeles para salvar seu irmão caçula de apuros, lá ele encontra outras organizações criminosas da Itália e do México que entram embate com os japoneses.

Nas duas décadas dos anos 2000, Takeshi Kitano realizou filmes notáveis como o épico “Zatoichi”(2003) a lenda de um samurai cego e exímio espadachim que engana seus adversários por sua aparência frágil. Umas das cenas mais maravilhosas deste filme é guardada para o fim, quando todos os atores e personagens do elenco realizam uma apresentação de sapateado de deixar até Fred Astaire de queixo caído.


Alguns projetos não tão sucedidos de Kitano fizeram ele voltar com força a um gênero que é o sua especialidade os filmes sobre a “Yakuza”. “Outrage” (2010) ou “O Ultrage” traz muita violência a disputa pelo poder entre os clãs da Yakuza e assim sobressai “Otomo” um Yakuza experiente que tenta defender seu clã, este filme teve uma continuação “Beyond Outrage“(2013) e ainda uma terceira continuação, “Outrage Coda“(2017) não menos violenta e explícita. Kitano aposta na violência nua e crua neste últimos trabalhos, perdendo um pouco a poética de seus trabalhos antigos, mas vale a pena conferir.


Além de ator protagonista de seus próprios filmes, Kitano atua como ator em filmes de outros diretores como filme norte-americano “Johnny Mnemonic”(1995) ou no filme japonês de horror “Batalha Real”(2000) de Kinji Kukasaku, onde interpreta um sádico diretor de escola  que obriga seus alunos a matarem uns ao outros num jogo perverso numa ilha isolada do continente. Sua participação mais recente e notável como ator foi no filme “Ghost in the Shell“(2017) trazendo bastante entusiasmo daqueles que são seus fãs e também dos fãs do animé que se tornou filme.

Violent Cop(1989) primeiro filme de Takeshi Kitano

Cena de “Boiling Point”(1990)

“Kids Return-De volta às aulas” mostra as incertezas e os conflitos pessoais de dois jovens

“Hana-bi”(1999) filme que consagrou a carreira de Takeshi Kitano

“Verão Feliz” um filme infantil que mistura comédia e drama

Remake da série “Zatoichi”(2004) o samurai cego

Kitano como Daisuke Aramaki em “Ghost in the Shell”(2017)