Contraditoriedades


Se fizermos um retrospecto ao longo da história da arte veremos que a contradição vai ser algo recorrente, por exemplo: ao nos depararmos com uma pintura em plena santa inquisição católica com um tema mitológico e profano. Todas essas recorrências são inerentes a história humana e não teria porque não citar estes exemplos.

Marcel Duchamp – A roda, 1913

Marcel Duchamp, artista moderno francês, criou uma série de obras conhecidas como ready-made, todas elas partem de um princípio que o artista não precisa fabricar ou criar o objeto para ele ser arte, basta apenas ele ter a intenção de arte sobre o mesmo. Sendo assim parece contraditório algo que não tem um sentido artístico a priori se tornar uma obra , mas sob o olhar de Duchamo teve. O sentido absurdo que coisas como “A fonte” ou “A roda” tiveram torna qual quer um em potencial num “artista”, para este ser, bastaria apenas uma ideia e um objeto.

Kasimir Malevichi – Branco sobre Branco, 1918

Branco sobre Branco, é o exemplo puro de pintura levada as suas últimas conseqüências. Muito antes de Mondrian os construtivistas russos já buscavam a expressão por meio das formas. Neste caminho Kasimir Malevichi chegou a sua maior criação no limite da pureza e da abstração formal: branco sobre branco. Num fundo branco, onde por lógica deveria ser colocado um objeto que contrastasse com essa cor, foi colocado sobreposto outro objeto da mesma tonalidade. Apenas um artista sem uma busca definida faria isso, mas porque Malevichi pintaria o nada sobre o nada?


Pintar um retângulo sobre uma superfície branca seria o cúmulo da abstração, algo parecido com o absurdo. Não pareceria estranho chamar estas criações de contraditórias já que as mesmas refletem esta energia que revolucionou arte, questionando velhas convenções.

Imaginar um enredo sem um conteúdo lógico, negar a estrutura de uma história, com começo, meio e fim seria a contradição em seu estado bruto. Podemos imaginar como foi isso a 83 anos atrás quando o cinema ainda era um rapaz, certamente muito avançado para aqueles tempos. A película de Dziga Vertov “Um homem com uma câmera”(1929) filme marco do cinema russo , símbolo de inovações e recursos que abriram as portas para um novo gênero: o Documentário. A nova maneira de fazer cinema trouxe uma nova ótica sobre a sétima arte, não havia enredo ou roteiro literário, logo no início de “Um homem com uma câmera” já se lê que não há absoluta ligação entre as linguagens do teatro e da literatura, é um filme de imagens desconexas, de pessoas, animais , máquinas , sentimentos e velocidade. Tal criação revolucionária marcou o cinema de uma vez por todas por sua originalidade e ousadia, que ainda hoje nos surpreende.

Mimmo Rotella – Cinemascope “Cartazes em Desordem, Caos ou Retrocesso?

Lentes que proporcionavam filmar de uma forma panorâmica ficaram conhecidas como Cinemascope, cartazes cinematográficos retirados da parede, imagens esfaceladas, desordenadas se transformam em massas de cores. A princípio vemos papéis rasgados colados sobrepostos, num segundo instante podemos ver alguns rosto e títulos. Tudo isto se trata de uma colagem de cartazes de filmes arrancados de muros e painéis para a criação de uma composição plástica. Mimmo Rotella usou das figuras do cinema, intocáveis da grande tela, desfragmentado-as a serviço das massas para suas harmoniosas colagens, caóticas e atraentes ao mesmo tempo, onde do belo se faz o incerto e do caos renasce novamente um belo. Não precisaria mais que isso para exemplificar a contradição.

Franz Weissmann Arte Concreta Tridimensional – A fita, 1985

Franz Weissmann Arte Concreta Tridimensional – A fita, 1985

A arte de Franz Weissmann traduz a experiência escultórica Neo-Concreta brasileira em diversas formas. Numa Flor Tropical ou numa Fita, ferros distorcidos vermelhos dividem ambientes públicos quase sempre em ambientes urbanos, um estilo geométrico de cores vivas, onde as linhas orgânicas são abolidas, onde o aço sobrepuja o espaço como monumento tridimensional, brincando de criar algo com elementos sólidos, brincando de ser criador com elemento bruto. A contradição está na materialidade da arte, por que representar uma fita, algo tão leve e suave com ferro bruto. Porque contrastar ambientes tão “naturais” com objetos tão industriais, certamente Franz Weissman não saberia explicar tão bem tamanha contradição aparente com sua arte.

José Resende – Intervenção Urbana, 2002

Como citado já neste texto, o absurdo foi um conceito muito prolífico nas artes. A relação do ser humano pós-moderno com o ambiente é fria, o cotidiano faz com quem as sensações sejam atenuadas pela rotina. Caminhando numa multidão teremos uma relação sensorial vaga, ao invés de aumentarmos nossa percepção diante dos ambientes urbanos, ano após ano o cidadão se torna indiferente principalmente a paisagem. Esta problemática se contradiz diante do turbilhão de imagens e sons que as cidades emanam, porém diante desta imensa Babel o ser humano se mantém cada vez mais distante dos detalhes, da contemplação. José Resende mudou drasticamente a paisagem da cidade de São Paulo, ao lado da Radial Leste, levantando dois vagões num vértice com cabos de aço, esta cena incomum trouxe um novo olhar para o cidadão, fazendo que ele fizesse algo incomum, parasse e observasse, mostrando que a cidade e seus elementos são algo comum diante do cotidiano urbano. A contradição está na maneira de sentir e apreciar as coisas, mesmo que absurdas. A contradição aparece nas coisas mais simples, nos momentos mais confortáveis da arte. A contradição se faz num protesto, num descontentamento, numa arte monumental que muita vezes destoa do contexto. O conceito contraditório é mutável e estabelecido mediante regras não lógicas ao antes existente. Sem ele talvez as coisas não teriam a mesma graça que agora, sem ele não poderíamos refletir sobre tantas coisas que parecem sem respostas ou incoerentes, que poderíamos traduzi-las como contraditórias.