Clube da Gravura de Bagé


Glênio Bianchetti, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar e Danúbio Gonçalves (1990)

Na década de 1950 um grupo de gravadores gaúchos, fundaram aquele que seria um importante Grupo na Arte Brasileira e acima de tudo uma referência nacional e até internacional na linguagem da Gravura, um grupo de artistas que se basearam numa cidade no extremo sul do país, divisa com o Uruguai: Bagé. Este texto tenta elucidar a importância deste grupo, como ele surgiu e porquê ele surgiu numa localidade tão distinta.

Danúbio Gonçalvez “Zorra”, 1952

Vasco Prado “Farroupilhas” 1951

O Clube da Gravura de Bagé  foi um coletivo de artistas, os principais: Carlos Scliar(1920-2001), Vasco Prado (1914-98), Glênio Bianchetti(1928-2014), Danúbio Gonçalves(1925) e Glauco Rodrigues(1929-2004).  Ao utilizar a Xilogravura e a Linoleogravura estes artistas buscaram um reprodução mais abrangente de sua arte e mais acessíveis e também de caráter revolucionário,  sendo estas técnicas de impressão usadas na Revoluções Culturais Mexicana e Chinesa, além disso tinham como proposta um arte engajada, com temáticas populares valorizando o trabalhador e a vida no campo, sobretudo da cultura regional gaúcha.

Glênio Bianchetti “Fazendo Marmelada”, 1951

Muito semelhante com os Muralistas Mexicanos no âmbito dos  temas populares, os gravadores do interior riograndense  tiveram como inspiração e forte influência outro clube de artistas mexicanos o Taller Grafica Popular (TGP) composto por Leopoldo Méndez, Pablo O’Higgins e Luis Arenal em 1937;  os gravadores gaúchos seguiram a mesma linha de arte do grupo mexicano com o Realismo Social,  estilo predominante de arte da União Soviética,  se opondo ao abstracionismo e valorizando o figurativo e a arte que exaltasse os valores nacionais, sempre com uma temática preocupada nas diferenças sociais, econômicas e políticas.

Glauco Rodrigues “Gaúcho Mateando”, 1953

Para entender a criação do Clube da Gravura de Bagé e de Porto Alegre , ou Grupo de Bagé, inicialmente precisamos analisar o papel fundamental dos artistas  Carlos Scliar e Vasco Prado que viveram na Europa nos anos 40 especificamente em Paris, lá tiveram contato com as vanguardas europeias e com Leopoldo Méndez(1902-69), líder do Taller Grafica Popular. A experiência mexicana com clube de gravura foi disseminada no Brasil através destes dois artistas que tinham ligação com a cidade de Bagé  e lá descobriram uma efervescência e grupo de jovens artistas que ansiavam se expressar e expor suas ideias através da arte. A partir da fundação do grupo de Porto Alegre(1948) e Bagé(1951) outras cidades brasileiras seriam contagiadas como Curitiba, São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Recife e também se expandiria para cidades de países vizinhos, como Buenos Aires, Montevidéu e depois Santiago no Chile.

Vasco Prado “Soldado morto”, 1950

Carlos Scliar:

Carlos Scliar “Auto-retrato”, 1951

Este artista teve um papel singular e central no grupo, sua importância não se da apenas ao grupo aqui abordado, mas também nas artes plásticas do sul do país em geral, pois através de seus contatos houve uma ponte entre artistas de São Paulo do Rio Grande do Sul, fazendo assim uma conexão. Scliar era de ascendência judaica, liga-se a Família Artística Paulista e ao Grupo Santa Helena nos anos e a participa na fundação da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa em Porto Alegre anos 1930, foi convocado pela FEB para lutar na Segunda Guerra Mundial no teatro de operações da Itália entre 1944-45.

Carlos Scliar “Sesta” gravura em metal ,1955

Mora em Paris entre 1947-50 conhecendo inúmeros artistas entre eles o gravador mexicano Leopoldo Méndez  no qual viria a dar origem ao Clube da Gravura de Bagé e Porto Alegre. Realiza umas série de desenhos durante seu período na guerra registrando atos de heroísmo, cenas cotidianas do front e soldados em descanso, publicado em 1969 como o título de “Desenhos de Guerra”. Scliar foi um artista com forte influência expressionista, embora não negasse sua admiração por Giorgio Morandi(1890 – 1964), P. Picasso(1881 – 1973) e Cândido Portinari (1903-62).

Carlos Scliar “Bumba-meu-boi”, 1950





Danúbio Gonçalves “Carneadores” Série Xanqueadas 1953-2000

Em 1956 o grupo se dissipou, porém seu legado foi enorme e sua proposta foi cumprida de incentivar a gravura no país e  grupos de artistas dando ênfase para os problemas sociais. Muitos ateliês de gravura foram fundados após a experiência de Bagé. Em 1959 o Grupo Bode Preto composto por estudantes do curso de Belas Artes de Porto Alegre e em sua primeira exposição era evidente a forte influência expressionista alemã por conta dos gravadores de Bagé. Inúmeros núcleos de discussão e produção de gravura se disseminaram pelo país e muitos se mantém até hoje, graças a experiência do grupo de Bagé.

Glauco Rodrigues “Continental América pela paz” 1952

Outros colaboradores do Grupo de Bagé:  José de Morais (1946) ,Edgar Koetz (1914-1969), Plínio Bernhardt (1927-2004), Carlos Antônio Mancuso (1930), Charles Mayer (1933) Charles Mayer (1933) e Fortunato (1916-2004)

Glênio Bianchetti “Socando Pilão, 1955